Conto selecionado para integrar a coletânea francesa Nouvelles Brésil – 2013

E na véspera de natal, uma questão de difícil acesso sem precedentes, quase acabou de vez com o espírito natalino. 
No morro do Bigode Elétrico a malandragem não dava mole, subia sem se identificar, ficava na subida mesmo, ou então voltava bem avariado. Foi assim que o ‘Suspiro’, (olheiro e candidato a matador oficial) encontrou um velhote fantasiado se equilibrando suspeito em cima do telhado de um barraco. 
– ÔH CUMPADI !!! (apontou-lhe o fuzil maior que seu tronco). DESCE DAÍ ‘MERMÃO’! A CASA CAIU MANÉ! 
O senhor robusto que aparentava muita idade, desceu lentamente, com um sorriso bondoso e pedindo calma ao rapaz, que mesmo assim o xingou de muitos absurdos, e depois destilou a primeira das ‘iras urbanas do novo Estado’, pra cima do idoso de face serena, rosado, que usava amáveis gorro e luvas. Um golpe na boca com a coronha do fuzil, e escorriam pela longa barba branca as primeiras gotas de sangue. Ainda assim o idoso não tombou nem pareceu tontear, olhou com a mesma face serena para o rapaz, e prosseguiu com o que havia planejado explicar antes da agressão gratuita:

– Não precisa isso meu filho, eu conheço as pessoas dessa casa, só gostaria de fazer-lhes uma surpresa.

Suspiro olhava tão vidrado e ofegante para o calmo vovozinho (um gladiador encarando um leão), que podíamos jurar que ele nada ouvia… Pelos seus motivos torpes, escutava lamúrias de um x-9, ou súplicas, de quem sabe bem o que acontece com esse tipo de Zé Arruela que gosta de roubar em comunidade.

– Eu só vim entregar dois presentes, para o Ricardo e o Paulinho, eles são crianças ótimas, estudiosos e educados! Você acredita que eles não pediram brinquedos?! Pediram um emprego pro pai. Eu, é claro, irei ajudar com o emprego, mas mesmo assim trouxe dois bonequinhos que eu sei que eles gostam… 
Quando o velhinho abriu a casaca, ingênuo, e foi mostrar ao possuído vigilante do império os brinquedinhos feitos com tanto esmero, este só viu uma arma rival e não pestanejou em atirar no seu pé. Páááh!

– QUER ME PEGAR VELHO! TÚ É DO OUTRO MORRO?!! ELES ACHARAM QUE UM OTÁRIO VESTIDO DE PAPAI NOEL IA ME ENGANAR?!

O pé espatifou-se, e já não saberíamos dizer o que era sangue ou parte de sua roupa vermelha. Desta vez o senhor caiu no chão e gritou com o rapaz. 
– Ai meu pé! Por que fez isso?! Será que não me reconhece? Elias, sou eu, NOEL! Tu me escreveste tantas vezes, lembra do boneco do Rambo?! A piscina de mil litros?! 
– VAI PRO INFERNO VELHO! VELHO MALUCO DA PORRA! COMO QUE TU SABE MEU NOME ‘RAPÁ’?! FICA AI QUE EU VOU BUSCAR O NERECO. O PATRÃO É QUE VAI DECIDIR O QUE A GENTE FAZ CONTIGO. ABRE A MÃO.

Ele abriu. Pááááh! Um tiro na palma da mão direita, que bem dizer se desintegrou. 
Suspiro correu com os mesmos olhos vidrados esgueirando o mal, e foi transtornado avisar o ‘patrão’. Assim que ele se afastou, dois meninos saíram de dentro do barraco precário onde a pouco o velhinho desmaiado se equilibrava. Acordaram-no com calorosos abraços, beijaram sua barba branca sem se importar com o sangue nos lábios e, desperto, Noel viu a dor se esvair num piscar de olhos; e todo o amor e a magnitude de sua missão ganharam suas justificativas. Noel puxou com a mão esquerda dois bonequinhos guardados na casaca, e entregou aos garotos encantados que não paravam de se desculpar. E abraçavam-no como sendo a última esperança.

– Vejam, meus amores! (entrega um envelope ensopado de sangue a Ricardo, o mais velho). Esse é o endereço onde seu pai conseguirá emprego. Agora eu quero que vocês entrem e rezem… Os bonequinhos vão rezar também, viu? Papai Noel tem que ir antes que aquele rapaz malvado volte.

Ricardo e Paulinho entraram, e tão fascinados estavam com os brinquedos novos, e pela visita que receberam, que nem perguntaram como o bom velhinho faria para voltar ao Pólo Norte daquele jeito… Um pé e uma das mãos feridas! Ajoelharam-se no colchonete e rezaram ao lado do pai que, acostumado aos tiros, dormia feito pedra. Eram realmente bons meninos. Melhor não terem visto o desencanto do veículo blindado puxado por renas de armadura e capacete, e os anões ajudantes fardados e armados que rapidamente recolheram o corpo ferido, e voaram pelas frestas espaciais rumo à Casa dos Brinquedos. Uma Tropa de Elite Natalina. 
O fiel assistente de Papai Noel não se conformava:

– Eu falei chefe! Eu avisei! O SENHOR É TEIMOSO! No Rio de Janeiro só dá pra entregar presente pessoalmente na Barra ou na Zona Sul… Mesmo assim, no asfalto, e com risco de roubo e espancamento!