Ou a fábula dos robôs obsoletos e endividados

Aconselho aos novos leitores sintonizarem a música “Homem com H”, de Ney Matogrosso, para ajudar na introdução do texto em suas mentes. 

Quando eu era criança, meu Brasil era bom e não me mandava calar. E, se mandasse, eu invocaria a força de Rogéria, em uma de suas aparições em programas dominicais para família, exibidos na TV. Eu clamaria por Astolfo Barroso Pinto, em mais uma sessão de descarrego contra as injustiças. Meu Brasil não era só bom, era engraçado. Era um trapalhão de cada cor, de cada região, rindo de si mesmos e abrindo a possibilidade de rirmos de todos nós. Meu Brasil não era só bom, era Salvador de todos os santos! Com babalorixás e padres, água benta e banho de axé, pastores e suas bíblias na mão. Tinha aquele que ouvia, que orava, que parava para ver, que acendia vela, eram todos brasileiros.

Mas, confesso que as coisas ficavam difíceis nos clássicos regionais, principalmente para quem gostava de futebol. Brasileiro não queria saber se um grupo devia ceder o lugar de fala a outro, ou quem era mais pardo, mais negro, mais índio, ou se o branco devia pagar dívida histórica. Brasileiro não estava nem aí. O povo só queria ganhar o Fla X Flu. A visão social que tínhamos era muito mais clara: brasileiros pobres e brasileiros ricos. Quem possuía mais, comia melhor, morava melhor, estudava melhor. E a grande massa, que dependia de serviços da rede pública e maior assistência do governo, levava a pior, sempre foi assim. Queríamos vencer na vida, queríamos vencer no campo de futebol, não queríamos vencer o vizinho, nem a guerra de informações e narrativas… Não queríamos vencer os passarinhos da Internet, aliás, existiam apenas passarinhos, não Internet.

Meu Brasil era bom, mas o fato é que ele me enganou com esse papo de igualdade e liberdade. Eu descobri por intermédio de um senhor honesto, talvez o mais honesto do mundo, há algum tempo atrás, que eu mesmo – imagine só – não queria, por hipótese alguma, que os nordestinos comessem carne vermelha e viajassem de avião. E que eu era de fato um canalha, um privilegiado, aproveitador das minorias e exterminador de índios. Ainda tentei me defender, argumentar com ele:

– Mas, meu bom senhor, eu não ando de avião! Fui criado no subúrbio carioca e, até hoje, um bife no prato é artigo de luxo.

Porém, não adiantou, o homem honesto foi irredutível:

– E tem mais, companheiro, você não quer que outros pobres como você frequentem a faculdade! E te acuso de outra verdade sobre você, que você não sabia. Tua raça me deve, no mínimo, 500 anos de aluguel, desde o descobrimento. Abaixe a calcinha e vai pagando.

Para completar, olhando-me com olhos enigmáticos, ele disse, parafraseando a inesquecível Vera Verão:

– Você é um quase brasileiro!

Esse senhor honesto não parou por aí, o tempo passou e vieram seus outros amigos, igualmente honestos, para todos os dias revelarem verdades sobre mim que eu jamais saberia sem eles. Agora descobri que além de racista, misógino, homofóbico, xenófobo, analfabeto político, branco privilegiado, sou também um robô. Faço parte de uma sofisticada milícia virtual, programada junto à CIA para instaurar o fascismo na América Latina, por meio das armas e das redes sociais. E, como descobri que sou culpado, tenho medo terrível de tudo que ainda não sei sobre mim mesmo, mas, que em breve saberei, através de pessoas honestas, que pretendem dizer quem eu realmente sou, e a punição que mereço pelas coisas que fiz e nunca soube. O Brasil é bom, mas enganou-me cruelmente. Esse papo de liberdade sempre foi mentira.