Um dos poemas vencedores do III Prêmio Literário Canon de Poesia 2010

No primeiro dia não vimos nada.

O disparo fatal no arquiduque

As mentiras de cada colarinho

As canções que previram furo

As orações que previram rombo

O último assombro

O feno

Em prantos, tantos,

Desacostumados ao nobre capim.

No primeiro dia não vimos nada.

As migalhas em bocas conformadas

Os pássaros pedindo gaiolas de sobrevivência

Os cardeais em sua santa indecência

Os pastores trocando ovelhas por pessoas

Os riachos secos

Os becos

Não vimos o mangue seco

Apodrecendo aos poucos

Em cada um de nós.

No primeiro dia não vimos nada.

Não vimos o invasor ditar as regras

E molestar o seio de nossas famílias

E arrastar as primaveras, os doces dias,

Para fingir em falsas telas diabólicas

A vida vulgar que o meu filho morto

Não teria!

No primeiro dia não vimos nada.

Não vimos a fome

Não vimos a sede

Não vimos a morte

Não vimos a desunião

Não vimos a desilusão

Não enxergamos a injustiça

Nem as fantasias

As contas

Os abatedouros

O sangue

A utopia!

No segundo dia nós enxergamos tudo.

Sim, no segundo dia.

E seguimos exatamente como no primeiro.